Precário [por Hal Foster]

Posted: January 9th, 2010 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: arte contemporânea, crítica de arte | No Comments »

Thomas Hirschhorn, Tool Table (2007)

No texto “Precarious”, Hal Foster organiza um conjunto de seis obras que representam a precariedade, uma condição biopolítica que para o autor definiu em grande parte a década de 00. A edição feita nesta tradução livre privilegiou a definição da “condição precária”. As obras em questão em “Precarious” são: Robert Gober, Untitled 2004-2005; Jon Kessler, The Palace at 4 AM, 2005 (P.S 1 Contemporary Art Center, Nova Iorque); Mark Wallinger, State Britain, 2007 (Tate Britain, Londres); Isa Genzken, Untitled, 2007 (praça do Liebfrauen-Überwasserkirche); Paul Chan, The 5th Light, 2007 (New Museum, Nova Iorque) e Thomas Hirschhorn, Musée Précaire Albinet (Cité Albinet, Aubervilliers), 2004.

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Hal Foster sobre a arte da década

Tradução livre do artigo “Precarious” publicado na edição de Dezembro de 2009 da revista norte-americana Art Forum

Nenhum conceito compreende a arte da década passada, mas existe uma condição da qual essa arte compartilha, é uma condição precária. Quase qualquer litania das manobras dos últimos dez anos vai evocar esse estado de incerteza: uma eleição presidencial roubada, os ataques de 11 de setembro e a guerra ao terrorismo, a falácia da Guerra do Iraque e a catástrofe da ocupação; Abu Ghraib, Guantánamo, e a rendição aos campos de tortura; outra eleição presidencial problemática; Catrina; a vitimização dos imigrantes; a crise do sistema de saúde, o desastre ecológico; o castelo de cartas financeiro…Contrariando outras discussões sobre a “falência do estado”, nosso próprio governo passou a operar, rotineiramente e destrutivamente, fora de seus limites. Não surpreende que o conceito do “estado de exceção” (desenvolvido pelo jurista nazista Carl Schmitt) foi recuperado, que esse estado mais uma vez aparentou ser (como Walter Benjamin escreveu em 1940) “não a exceção mas a regra,” ou que, como consequência, o campo parece ter se tornado (como Giorgio Agamben afirmou em 1994) “o novo nomos [princípio] biopolítico do planeta.”

Talvez nossos laços políticos – quer o chamemos de contrato social ou de ordem simbólica – sejam sempre mais tênues do que imaginamos; e certamente eles já eram precários muito antes de 2000. Antes ainda de Bush e Blair, Reagan e Thatcher liderarem o comando do neoliberalismo com o lema “Não existe essa coisa de sociedade,” mirando os mais vulneráveis (classes baixas, gays, lésbicas e imigrantes) em maneiras que fizeram suas vidas ainda mais precárias. Na década passada, essa condição se tornou quase pervasiva, aumentando a insegurança que essa arte procurou enfatizar, e até mesmo exacerbar. Essa instabilidade social é redobrada por uma instabilidade artística, já que o trabalho aqui em questão precede sua própria condição esquemática, sua própria falta de significados compartilhados, métodos, ou motivações. Assim, paradoxalmente a precariedade parece ser quase constitutiva dessa arte, ainda que às vezes ela transforme sua aflição debilitante em um apelo persuasivo.

Jon Kessler - The Palace at 4 Am, 2005

Jon Kessler - The Palace at 4 Am, 2005

Isa Genzken, Untitled, 2007

Isa Genzken, Untitled, 2007

Mark Wallinger, State Britain, 2007

Mais uma vez, essa situação não é inédita. “A verdadeira e mais importante função da vanguarda,” Clement Greenberg escreveu setenta anos atrás em Avant-Garde and Kitsch, era “encontrar um caminho no qual fosse possível levar a cultura à diante em meio à confusão ideológica e à violência.”. Em sua visão, o caminho adequado era dirigir a mídia da arte “à expressão de um absoluto no qual todas as relatividades e contradições seriam resolvidas ou não seriam o ponto central.” um projeto já há muito tempo abandonado. No entanto, em uma revisão de Greenberg de trinta anos atrás, T.J. Clark argumenta que a tal “auto-definição” era na verdade inseparável das “práticas de negação” produzidas precisamente fora das “relatividades e contradições,” sendo a negação aqui compreendida como “uma tentativa de capturar a escassez de significados consistentes e reproduzíveis na cultura – capturar a escassez e transformá-la em forma.” Na arte que tenho em mente, a negação é ainda desprovida de relatividades e contradições, mas não como uma transformação do sem-forma em forma. Pela contrário: ela está preocupada em deixar essa informidade ser, para que possa evocar o mais diretamente possível, tanto a “confusão” das elites dominantes quanto a “violência” do capital global. Como é de se esperar, essa mimese do precário é frequentemente representada por instalações performativas [...].

Cheguei ao termo “precário” por meio de Thomas Hirschhorn e de vários de seus projetos, como o Musée Précaire Albinet, exibido na periferia de Aubervilliers em Paris em 2004, que diz muito sobre essa questão; seu colaborador ocasional o poeta francês  Manuel Joseph também utiliza o termo em um breve texto sobre la précarité “como um aparato político e estético”. Contudo, o que quero ressaltar no termo já consta no Dicionário Oxford: “Precário: do latin precarius, obtido por súplica, dependente do favor de outro, portanto incerto, precário, da prece, do imploro.” Isso implica que o estado de insegurança não é natural, mas construído – uma condição política produzida por um poder de cujo favor dependemos e único pelo qual podemos rogar. Reproduzir o precário, portanto, é não somente evocar seus efeitos perigosos e adversos mas também afirmar como e porquê eles são produzidos – e assim comprometer a autoridade que impõe esse contrato antisocial da “tolerância revogável” (como diz Joseph). O senso de súplica [rogo, imploro] é gravemente perdido na palavra inglesa [ se refere à palavra "precário"], é porém forte nas instalações que mencionei acima. Algumas vezes é mórbido (como em Robert Gober e Paul Chan), algumas vezes é desesperador (como em Jon Kessler, Mark Wallinger e Isa Genzken), mas em todas as instâncias essa qualidade importuna implica que a súplica também carregue a força da acusação – uma amostra da violência feita aos princípios básicos da responsabilidade humana.

“De alguma forma nós passamos a existir no momento em que algo nos é endereçado,” Judith Butler escreve, “e algo da nossa existência se prova precário quando essa endereçamento falha.” Em Precarious Life (2004), seu breve ensaio sobre Emmanuel Levinas, Butler explora a noção de “a face,” no qual o filósofo francês se comporta como a própria imagem da “precariedade extrema do outro.” “Responder à face, entender seu significado,” Butler argumenta, “significa estar ciente do que é precário em outra vida ou ainda, da precariedade da vida por si própria.” Esta é a face mostrada pela arte da última década que mais me afetou.

tradução: Vivian Caccuri



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