O som no museu e na galeria

Posted: December 8th, 2009 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: arte contemporânea | 2 Comments »
Jack Goldstein - A Suite of 7 Nine Inch Records with Sound Effects

Jack Goldstein - A Suite of 7 Nine Inch Records with Sound Effects, 1976

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Helmut Draxler é um dos curadores da exposição “See This Sound” realizada no Lentos Museum na Áustria – uma das maiores exposições já feitas sobre o som nas artes plásticas. Seu texto “How Can We Perceive Sound as Art?” ajuda a compreender como percebemos o som como arte no ambiente do museu ou da galeria:

Em minha visão, é precisamente o horizonte imaginário do museu e da história da arte que trouxe esse deslocamento terminológico que virou base – pelo menos desde os readymades – para que todo e qualquer objeto possa ser “arte”, incluindo o som. (Draxler, trad. Livre, 2009, p.28)

O que está em jogo aqui é nada menos que a maneira na qual as experiências concretas de escutar e perceber interagem com os códigos culturais que as estruturam. É precisamente o espaço entre mídia e código, som e museu, que importa para uma perspectiva da prática e do processo de recepção.[...]Por isso, a história das relações entre música e as artes visuais – desde John Cage – não pode ser lida como uma fusão ou uma fantasmagoria sinestésica, mas sim como uma história de mudança de direção entre os campos do som e da musealidade. (Draxler, trad. Livre, 2009, p.30)

Draxler defende ‘abordagens que fazem possível experimentar, em uma exposição, o som em seu caráter cultural e midiático, assim como uma forma de arte histórica’.  O resultado prático dessas abordagens seria uma visão mais abrangente dos problemas endereçados ao audível, que não só os valores puramente formais do som. É assim compreendido que a visão de Helmut Draxler desloca o som de categorias exclusivamente formais ou midiáticas e o faz assumir também valores culturais e históricos. Assim, Draxler propõe uma espécie de “multitexto”, uma justaposição de diversos códigos (os da Música, os das Artes Plásticas, etc.) para a experiência do som no museu.

Entretanto, um dos obstáculos para que a visão de Draxler possa se aplicar amplamente a diferentes tipos de museus e galerias, é justamente o problema da recepção da obra sonora. Por ser uma prática recente, pouco já se discutiu no Brasil sobre o que seria uma recepção “adequada” da obra sonora ou que espécie de recepção estética do som é relevante para o campo das artes visuais.

O que se pode prever no processo de recepção da obra sonora, no entanto, é uma grande influencia dos códigos de recepção já existentes na experiência do museu. Acredito que é necessário e construtivo que a criação da obra sonora considere esses códigos como um todo para que se também seja possível agir conceitualmente a partir deles.

Ainda assim, somente entender os códigos de recepção do museu e da galeria não soluciona o problema de comunicação que é criado com uma obra sonora nos espaços dedicados às artes visuais. Uma solução é dada por Ola Stockfelt que pensou diversos aspectos sociológicos de uma possível “escuta adequada” na música no texto “Adequate Modes of Listening”, publicado no livro Audio Cultures: Readings in Modern Music.

Stockfelt compreende que a escuta adequada no campo da Música, parte de um processo de negociação entre indivíduos, grupos de indivíduos e instituições. Compreendo então que no campo das Artes Visuais, cabe aos artistas, curadores e outros profissionais do campo discutir interesses estéticos comuns à volta do uso do som na arte contemporânea para que esses códigos ainda não estabelecidos, sejam negociados, assimilados e posteriormente recriados.


2 Comments on “O som no museu e na galeria”

  1. 1 rodolfo valente said at 12:55 pm on December 8th, 2009:

    oi vivian, bacana seu texto. entendi que ele aborda a questão de um viés mais teórico (percepção sonora dentro dos códigos de recepção do museu/galeria), mas quando vi o título pensei em algo bem mais prático que observo por aí: o fato de se colocarem muitas vezes obras que trabalham com som muito próximas entre si, gerando interferências que nem sempre são interessantes para os trabalhos. mas talvez você já aponte para isso quando menciona ‘recepção “adequada” da obra sonora’. beijo!

  2. 2 Vivian Caccuri said at 3:36 pm on December 8th, 2009:

    Oi Rodolfo, é exatamente disso que estou falando. A galeria não é sala de concerto e as adaptações físicas são muito difíceis, parecem artificiais e quase nunca funcionam. Além disso, existem outros códigos culturais, diferentes dos da sala de concerto e de cinema, operando ali. O que proponho é que o artista leve esses códigos e as características físicas da galeria em consideração, antes de empreender obras que precisam (praticamente!) de câmaras anecóicas para serem exibidas. Assim, a interferência entre obras sonoras que estão próximas pode ser pensada de forma construtiva.


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