Som em Foco: a experiência sonora na 7ª Bienal do Mercosul e na XVIII Bienal de Música Contemporânea do Rio de Janeiro [resumo]

Posted: November 3rd, 2009 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: arte contemporânea | No Comments »

Vivian Caccuri, mestranda em Musicologia – Estudos do Som Musical
orientador: Rodolfo Caesar

Este trabalho preliminar à dissertação “Arte e Som na América Latina” tem por objetivo investigar como dois diferentes campos culturais no Brasil – as Artes Visuais e a Música – se organizam e se comportam frente à experiência do som e do audível, tendo como referência principal uma etnografia comparada do programa de abertura da 7ª Bienal do Mercosul, evento dedicado às Artes Visuais do eixo econômico realizado em 16, 17 e 18 de outubro de 2009 em Porto Alegre, e a noite dedicada à música eletroacústica na XVIII Bienal de Música Contemporânea do Rio de Janeiro, realizada em 24 de outubro de 2009 na Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro.

Uma análise comparada de eventos de dois campos culturais com códigos próprios e pouco equivalentes é necessária em um período onde se percebem entusiasmo e estratégias artísticas, institucionais e curatoriais que favorecem atividades que colocam em foco o material ou a emissão sonora, a mídia de áudio, a escuta e a música “culta” e “popular” no sistema das Artes Visuais.

Algumas dessas estratégias podem ser identificadas na 7ª Bienal do Mercosul que teve como tema “Grito e Escuta”. O tema serviu ao evento como um centro de gravidade estético que se volta aos limites construídos ou espontâneos, intersecções e obstáculos entre visualidade e auralidade. O evento na capital gaúcha também presta homenagem a John Cage em dois diferentes núcleos expositivos: A Radiovisual, rádio parte virtual, parte integrada à FM Cultura onde 124 artistas criaram composições de 4’33” referindo-se diretamente à peça emblemática do compositor norte-americano; e o evento-obra “Musicircus”, uma proposta artística também de autoria de John Cage que reuniu 49 performances de 25 artistas por três horas em um só espaço.

Diferentes estratégias de renovação/expansão de limites estéticos são também encontradas no sistema da Música no Brasil, como algumas apresentações da noite dedicada ã música eletroacústica na  XVIII Bienal de Música Contemporânea do Rio de Janeiro mostraram. A primeira peça a ser apresentada na noite foi uma composição audiovisual, que trouxe o vídeo como elemento estético indissociável da composição musical. Tais tentativas são sintomas de um fenômeno maior e mundial, de compositores que migram do campo da Música para o da Artes Visuais – ou passam a fazer parte dos dois – para práticas artísticas que são frequentemente categorizadas como “sound-art” ou arte sonora. O presente trabalho também visa buscar indícios dessa inter-relação dos campos no país a partir do exame das duas bienais.

Serão analisados e comparados os eventos das duas bienais sob diferentes perspectivas. A perspectiva etnográfica investiga a organização e realização das bienais, comparando processos de curadoria e seleção, recursos de divulgação, perfil e histórico dos artistas participantes e  perfil do público que atendeu ao programa. Gravações de áudio, entrevistas com artistas, organizadores e público; fotografias, anotações de campo e análise de material institucional foram as técnicas utilizadas para recolher dados in loco e remotamente das duas bienais.

Uma perspectiva estética e sociológica posterior procura contrastar a construção de códigos específicos em torno da produção e exibição da experiência sonora nos dois eventos, tendo como objetivo definir a importância das bienais na consolidação de uma linguagem própria do sistema que representam. Para tal, serão feitas análises com apoio dos estudos de Pierre Bourdieu sobre os campos de produção cultural ( o livro “The Field of Cultural Production”) em particular o das artes visuais e seu mercado, a etnografia “Rationalizing Culture: IRCAM, Boulez and the Institionalization of the Musical Avant-Garde” de Georgina Born que investiga o fenômeno da institucionalização da Música em centros como o IRCAM, e finalmente, textos de Helmut Draxler (“How Can We Perceive Sound as Art?”) e Diedrich Diederichsen (“Tearing Down Open Borders”) inclusos no catálogo de uma das maiores e mais abrangentes exposições sobre arte e som dos últimos anos “See This Sound”, realizada no segundo semestre de 2009  no museu Lentos em Linz na Áustria. Textos teóricos e curatoriais de exposições como a brasileira “Arte e Música” serão úteis para mapear os domínios do som nas fronteiras entre Artes Visuais e Música no Brasil.



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