Anotações da leitura de “Rationalizing Culture: IRCAM, Boulez and the Institutionalization of the Musical Avant-Garde”

Posted: October 15th, 2009 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: composição, ferramentas, novas mídias, sociologia da arte, sound-art | 2 Comments »

Planta do IRCAM próximo ao Museu Georges-Pompidou

Georgina Born é uma antropóloga britânica com formação musical que realizou um trabalho etnográfico no Institut de Recherhce et de Coordination Acoustique/Music, o IRCAM, na França. O produto, o livro chamado “Rationalizing Culture: IRCAM, Boulez, and the Institutionalization of the Musical Avant-Garde” teve parte da pesquisa realizada durante o período em que a antropóloga passou no instituto como pesquisadora visitante (Janeiro a Novembro de 1984), período também de gestão do compositor Pierre Boulez como diretor do IRCAM. Um dos motivos mais frisados por Georgina Born para estudar o instituto, é sua preocupação em realizar etnografias de organizações e instituições da “alta cultura”, que segundo ela, não eram objetos de muitas pesquisas no campo da Antropologia da época.

A obra é dividida em três partes definidas pelo método de sua pesquisa. A primeira é seu referencial teórico em que se baseou para observar e analisar o IRCAM e construir hipóteses como:

  1. O período dirigido por Pierre Boulez  é coincidente com o período de intensificação dos processos de institucionalização da Música que culminaram na criação de institutos e centros como esse na Europa e Estados Unidos*. Quais linhas de pensamento e ação política mostrou Boulez durante o tempo estudado? O que elas imprimiram no pensamento do IRCAM mesmo após o fim de sua gestão ?
  2. Em instituições como o IRCAM, existe uma importante colaboração e entre cientistas e Músicos para que se realizem a maioria de seus projetos. É essa uma espécie de convergência das artes em ciências aplicadas? Que tipo de sincretismo é proposto entre Ciência e Arte nas produções de seus compositores? É mesmo a idéia de um simples sincretismo, ou é a idéia de que uma convergência das Artes em Ciências Amplicadas seria algo inevitável no projeto Modernista?
  3. A crise da composição durante o fim do século XX foi cenário para que a linha de pensamento “evolucionista” na Música se institucionalizasse?

Biblioteca do IRCAM em modelo VRML

Essas hipóteses me apontam algumas direções para as quais a Música seguiu como um campo do conhecimento. Habermas em Modernity – An Incomplete Project” descreve problemas que ocorreram com um dos “projetos” que existiam nos sistemas das Artes durante o Modernismo, que tinha como objetivo primeiro a independência e auto-suficiência total do campo em relação ao outros como a Economia, a Sociologia, a Filosofia, etc. Sabemos que essa independência total não foi possível e isso é um dos motivos pelos quais Habermas acredita que a Modernidade é de fato um projeto incompleto.

Uma imagem relacionada a esse problema utilizada por Born é a comparação entre o sistema da Música e das Artes Visuais, para compreender como o campo da Música reagiu à sua crise no final do século XX:

  • Dos anos 50 a 60 a música serialista encontrou as universidades, ali foi aclamada e legitimada como bem cultural. A partir disso, a Música de “vanguarda” encontrou a maior parte de seu financiamento na academia.
  • Na mesma época, as artes visuais – além de possuir seu código de mercado próprio – forneciam diversos códigos para o design, a moda e o desenho industrial. O mesmo parece não ter acontecido com a música “culta” (talvez mais sobressalentes sejam as tentativa de unir valores da Música e do Cinema no trabalho de cineastas como Tarkovsky, Kubrick, etc ). Acredito que com essa comparação Born mostra a  intensidade com a qual alguns campos das Artes ainda conseguem imprimir seus valores próprios em outros sistemas, e como a auto-referencialidade do serialismo vem servir a uma separação (também estética) da Música em relação a esses outros campos.

A segunda parte da obra de Born é a etnografia do IRCAM por si própria. Born estruturou a etnografia por focos de interesse como “relação Arte-Ciência”, “atividades de criação”, “propriedade intelectual”, etc.

A terceira e última parte de Rationalizing Culture são conclusões com uma atualização sobre o estado-da-arte do IRCAM, já que a obra de Born levou quase dez anos para ser desenvolvida. Ao final do livro, Pierre Boulez já não é mais o diretor do IRCAM, o que forneceu uma ótima perspectiva crítica à antropóloga para que fossem analisadas as consequências e mudanças que a gestão de Boulez desempenhou na instituição.

Nessa leitura me focarei em compreender se a política estética e cultural do IRCAM é a criação de um espaço de convergência de uma forma determinada de Música (a música mista) em uma espécie de Ciência Aplicada. Me concentrarei em procurar análises de Born e terceiras que examinem se esse mesmo espaço de convergência foi também criado em outros sistemas, como o das Artes Visuais.

Gostaria também de traçar alguns paralelos entre os valores “evolucionistas” de instituições como o IRCAM e as políticas de difusão desses valores. É de meu interesse entender como esses valores influenciam o sistema da Música como um todo e como eles são transferidos entre o eixos estéticos hegemônicos ( Europa / Estados Unidos) e América Latina.


2 Comments on “Anotações da leitura de “Rationalizing Culture: IRCAM, Boulez and the Institutionalization of the Musical Avant-Garde””

  1. 1 BRIAN said at 7:10 am on July 2nd, 2010:


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