Re-interpretação musical

Posted: July 23rd, 2009 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: composição | No Comments »

Edson Zampronha em “ Três exemplos de retórica do discurso musical”, apresenta três casos onde ocorre uma re-interpretação capaz de criar uma espécie de retórica musical dentro da obra. A Sonata Opus 31 nº2 “A Tempestade” de Beethoven, Hyperprism de Edgard Varèse e Fragmentos Reduzidos de uma História muito Longa composta pelo próprio autor, são os exemplos escolhidos para demonstrar como ocorre essa re-interpretação de eventos. De uma maneira suscinta, Zampronha descreve os estágios da re-interpretação da seguinte forma:

1)Entendimento inicial do evento
2)Desvio em relação ao entedimento inicial
3)Novo entendimento devido ao desvio

A escolha dos exemplos já denota que a re-interpretação não é um artifício estilístico para Zampronha, já que uma sonata do período clássico para o romântico, uma composição do modernismo do século XX e uma obra que poderíamos classificar como “pós-moderna”, apresentam de forma análoga, a re-interpretação intra-musical.

De que maneira então, acontece essa retórica musical nas obras indicadas? Se reduzirmos as características de re-interpretação aos seus mínimos múltiplos comuns, podemos identificar as seguintes ações artísticas:

- repetição de temas
- decomposição dos temas apresentados de forma a transformá-los na escuta
- quebra de convenções da escuta por meio da decomposição de temas
- intenção de se criar uma tipologia musical própria da obra

As três obras, no entanto, diferem esteticamente nessas ações. Beethoven opera por meio de figuras musicais em sua sonata, utilizando-se da ironia para decompor uma fórmula convencional de introdução que remete à certas articulações barrocas. A introdução da sonata, por meio de sua repetição e decomposição (uso da modulação) vira o tema principal, quebrando diversas convenções que fariam o ouvinte criar espectativas por uma introdução e um desenvolvimento “independentes”.

Já a característica marcante de Varèse é o uso de elementos plásticos em sua obra e não de figuras. Ou melhor, inicialmente os aglomerados de ritmos, timbres e harmonias se apresentam como elementos plásticos, mas no desenvolvimento da obra pode-se observar claramente uma intenção de se criar uma tipologia própria com esses elementos. Essa tipologia é construída por meio de repetições de alguns aglomerados de timbres e notas, deslocando a escuta do eixo das materialidades sonoras, para o das figuras sonoras. A materialidade, por meio das ações para a re-interpretação, transforma-se em motivo, o que torna possível a construção de sentenças e finales e portanto, figuras.

A composição de Zampronha parece ir no caminho contrário a Hyperprism de Varèse. Em “Fragmentos Reduzidos…”, ele desenvolve estratégias composicionais para que a construção plástica predomine a partir da apresentação de alguns aspectos referenciais. Uma primeira estratégia é uma alternação dos quatro primeiros segmentos que se destacam por características de horizontalidade (linearidade / melodia) e verticalidade (harmonias). Estranhamente, o segmento “Gran Finale” parece concluir essa primeira parte da composição para dar vez aos segmentos finais que já apresentam o desenvolvimento propício para a re-interpretação, comprimindo a verticalidade e a horizontalidade dos segmentos anteriores em arpeggios para deslocar a escuta.

A re-interpretação apontada por Zampronha talvez funcione como uma retórica capaz de dar a sensação de desenvolvimento e desfecho à obra musical. Fica subentendido que esse tipo de retórica independe de estilo e época e pode ser uma estratégia composicional para uma comunicação morfológica durante a experiência da música. Seria interessante pesquisar também outros exemplos não tão bem sucedidos de retórica de re-interpretação, para observar quando ela deixa ser uma característica intra-musical para virar teatralidade.



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