Uma diva exótica de cada vez, por favor.

Posted: May 13th, 2009 | Author: Vivian Caccuri | Filed under: música pop, pop, teoria feminista, teoria pós-colonial | Tags: , , , | No Comments »


As cantoras Santigold e M.I.A.

Na música pop, poucas idéias parecem ser tão frescas quanto as da cantora britânica M.I.A. . Ainda. Porque já faz cinco anos que a cantora de família cingalesa lançou o álbum Arular que a lançou no mundo como uma novidade imperdível da cena alternativa londrina. Mas ela provou ser muito mais que isso com sua mistura explosiva de dancehall, hip-hop, electro, funk carioca, dub, kuduro e diversos outros ritmos eletrônicos inventados nas “periferias globais”. M.I.A. ganhou o grande público inventando uma estética multicultural que une o som das favelas do Rio de Janeiro com batidas do tambor indiano urumee, samples de pegada hip-hop e o que a sua criatividade e a de seus colaboradores (como o aclamado DJ e produtor Diplo, o rapper Afrikan Boy, etc) mandarem.

A artista londrina tornou-se uma espécie de veículo da criatividade musical contagiante das periferias globais, habitando simultaneamente diversas identidades estereotípicas e não-estereotípicas de forma a criar uma bricolage de imagens do “Terceiro Mundo”, do “diaspórico”, do “pós-colonial”, do “exótico” que funcionam como seus eixos estéticos assim como o pop, a moda e sua sensualidade; elementos estruturadores de seu poderoso carisma e da via de comunicação ampla que a levou aos mais variados públicos.

Uma posição tão especial como essa abre margem para que a mídia tente classificar o que M.I.A. representa no mundo pop de modo a capturar em poucas palavras o desafio que sua música, seus clipes e sua moda põe a ideias pouco descentralizadas sobre uma identidade terceiromundista ou pós-colonial. Uma das tentativas mais recentes é a comparação à cantora e produtora musical americana Santigold (antiga Santogold).

Santi White é negra, nascida na Filadélfia, e lançou seu primeiro álbum solo em 2008 que foi recebido com críticas entusiasmadas e muitas vezes acompanhadas de tais comparações à M.I.A. . Os paralelos começam inocentemente na menção dos colaboradores que as cantoras tem em comum (os DJs Diplo e Switch, mencionados pelo blog indie Pitchfork) e passam por erros graves como o da matéria “A vez de Santogold” publicada na Folha de São Paulo. O jornalista Thiago Ney começa a coluna com a premissa da comparação e chega a afirmar que as duas cantoras são “negras”. Até que a Geografia mude os mapas, o Sri Lanka não fica na África, mas no Oceano Índico ao sul da Índia. É da etnia tamil daquele país a origem da família de Mathangi Arulpragasam – M.I.A.

Nesse ponto compreendo que comparações podem ser muitas vezes um artifício do jornalismo para chamar a atenção do/a leitor/a para algo novo, contrastando-o com algo já familiar a ele/a. No entanto, esse artifício de comparação no caso específico M.I.A X Santigold não existiria se não houvessem estratégias discursivas de identificação agindo sobre a interpretação da estética das cantoras/produtoras. Somente com a segurança epistemológica do estereótipo pode-se comparar uma artista britânica de ascendência cingalesa à uma artista afro-americana que produz uma música pop de motivações estéticas distintas.

A pergunta que coloco é: como a mídia estabelece uma margem de comparação entre M.I.A. e Santigold, que a permite criar um espaço representativo que comporta somente uma “diva”? Em outras palavras, como e por quem é diagramado o álbum onde M.I.A. e Santigold são figurinhas repetidas? Não pretendo traçar um histórico da mídia da música pop para mapear as origens dessas vagas limitadas, mas sim chamar atenção em como a diferença é um parâmetro de classificação dessa economia que usa denominações como “world music”. “World Music” é uma categoria musical popular criada nos anos 60 que abrange basicamente toda a música que não é feita no Hemisfério Norte ocidental ou não compartilha da identidade musical popular da mesma região. Vários aspectos podem jogar um artista dentro da categoria “world music”, como origem, idioma em que se canta, instrumentos e sistema tonal e rítmico utilizados, mas a classificação essencialmente se estrutura na perspectiva da diferença racial/cultural/histórica, na “representação da alteridade” – para usar as palavras de Homi K. Bhabha.

Creio que M.I.A. e Santigold estão compromissadas demais com o Ocidente e com a música pop ocidental para serem inseridas na categoria. Ainda mais Santigold que fez um álbum inclassificável do ponto de vista das categorias pop, juntando faixas rock ao estilo Blondie e Siouxsie and The Banshees com outras canções de batida pesada dub, dubstep e transfigurações do reggae com elementos do rock. No entanto, na visão da mídia ainda existe o elemento da diferença que as une como exemplares de um único fenômeno. Um fenômeno que provoca prazer e medo ao mesmo tempo, já que no trabalho das duas artistas a já conhecida estética pop se une a diversos elementos vistos como “diferentes” como o funk carioca, o dub e os tambores indianos e a própria diferença racial das cantoras. Nessa proposta estética, o público é levado a um nível intermediário de reconhecimento, uma “categoria mediana que permite que se vejam coisas novas, coisas vistas pela primeira vez, como versões de uma coisa previamente conhecida”, citando Bhabha novamente.

Seria então essa “categoria mediana” o território de comparação de Santigold à M.I.A.? Nessa categoria, Santigold parece tentar suavizar o choque das “coisas novas” com formatos já conhecidos de composição e apresentação da música pop. Já M.I.A. explora o medo do outro a seu favor e apresenta a différance como um agregador de valor e originalidade. As duas, de maneiras distintas, estão habitando uma posição de fragmentação do exótico/desconhecido para signos que podem ser mais facilmente assimilados e utilizados posteriormente como moda, estilo e até como bases de um novo gênero musical. Resta saber como é representada essa posição de fragmentação: como um gerador de imagens estereotipadas ou como um território que pode ser habitado pela diversidade estética/cultural/racial.



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