Georgina Born é uma antropóloga britânica com formação musical que realizou um trabalho etnográfico no Institut de Recherhce et de Coordination Acoustique/Music, o IRCAM, na França. O produto, o livro chamado “Rationalizing Culture: IRCAM, Boulez, and the Institutionalization of the Musical Avant-Garde” teve parte da pesquisa realizada durante o período em que a antropóloga passou no instituto como pesquisadora visitante (Janeiro a Novembro de 1984), período também de gestão do compositor Pierre Boulez como diretor do IRCAM. Um dos motivos maisfrisados por Georgina Born para estudar o instituto, é sua preocupação em realizar etnografias de organizações e instituições da “alta cultura”, que segundo ela, não eram objetos de muitas pesquisas no campo da Antropologia da época.
A obra é dividida em três partes definidas pelo método de sua pesquisa. A primeira é seu referencial teórico em que se baseou para observar e analisar o IRCAM e construir hipóteses como:
O período dirigido por Pierre Boulez é coincidente com o período de intensificação dos processos de institucionalização da Música que culminaram na criação de institutos e centros como esse na Europa e Estados Unidos*. Quais linhas de pensamento e ação política mostrou Boulez durante o tempo estudado? O que elas imprimiram no pensamento do IRCAM mesmo após o fim de sua gestão ?
Em instituições como o IRCAM, existe uma importante colaboração e entre cientistas e Músicos para que se realizem a maioria de seus projetos. É essa uma espécie deconvergência das artes em ciências aplicadas?Que tipo de sincretismo é proposto entre Ciência e Arte nas produções de seus compositores? É mesmo a idéia de um simples sincretismo, ou é a idéia de que uma convergência das Artes em Ciências Amplicadas seria algo inevitável no projeto Modernista?
A crise da composição durante o fim do século XX foi cenário para que a linha de pensamento “evolucionista” na Música se institucionalizasse?
Essas hipóteses me apontam algumas direções para as quais a Música seguiu como um campo do conhecimento. Habermas em “Modernity – An Incomplete Project” descreve problemas que ocorreram com um dos “projetos” que existiam nos sistemas das Artes durante o Modernismo, que tinha como objetivo primeiro a independência e auto-suficiência total do campo em relação ao outros como a Economia, a Sociologia, a Filosofia, etc. Sabemos que essa independência total não foi possível e isso é um dos motivos pelos quais Habermas acredita que a Modernidade é de fato um projeto incompleto.
Uma imagem relacionada a esse problema utilizada por Born é a comparação entre o sistema da Música e das Artes Visuais, para compreender como o campo da Música reagiu à sua crise no final do século XX:
Dos anos 50 a 60 a música serialista encontrou as universidades, ali foi aclamada e legitimada como bem cultural. A partir disso, a Música de “vanguarda” encontrou a maior parte de seu financiamento na academia.
Na mesma época, as artes visuais – além de possuir seu código de mercado próprio – forneciam diversos códigos para o design, a moda e o desenho industrial. O mesmo parece não ter acontecido com a música “culta” (talvez mais sobressalentes sejam as tentativa de unir valores da Música e do Cinema no trabalho de cineastas como Tarkovsky, Kubrick, etc ). Acredito que com essa comparação Born mostra a intensidade com a qual alguns campos das Artes ainda conseguem imprimir seus valores próprios em outros sistemas, e como a auto-referencialidade do serialismo vem servir a uma separação (também estética) da Música em relação a esses outros campos.
A segunda parte da obra de Born é a etnografia do IRCAM por si própria. Born estruturou a etnografia por focos de interesse como “relação Arte-Ciência”, “atividades de criação”, “propriedade intelectual”, etc.
A terceira e última parte de Rationalizing Culture são conclusões com uma atualização sobre o estado-da-arte do IRCAM, já que a obra de Born levou quase dez anos para ser desenvolvida. Ao final do livro, Pierre Boulez já não é mais o diretor do IRCAM, o que forneceu uma ótima perspectiva crítica à antropóloga para que fossem analisadas as consequências e mudanças que a gestão de Boulez desempenhou na instituição.
Nessa leitura me focarei em compreender se a política estética e cultural do IRCAM é a criação de um espaço de convergência de uma forma determinada de Música (a música mista) em uma espécie de Ciência Aplicada. Me concentrarei em procurar análises de Born e terceiras que examinem se esse mesmo espaço de convergência foi também criado em outros sistemas, como o das Artes Visuais.
Gostaria também de traçar alguns paralelos entre os valores “evolucionistas” de instituições como o IRCAM e as políticas de difusão desses valores. É de meu interesse entender como esses valores influenciam o sistema da Música como um todo e como eles são transferidos entre o eixos estéticos hegemônicos ( Europa / Estados Unidos) e América Latina.
performance "Muxux Uleu" de Naúfus Ramírez-Figueroa
Este é um ensaio que apresenta algumas investigações sobre a representação da arte jovem latino-americana no mercado de arte global, tendo como objeto uma exposição feita exclusivamente com artistas nascidos após 1976. Gostaria de chamar atenção de que essas não são afirmações definitivas sobre a produção dos artistas que tomo como exemplo. Mas sim, algumas reflexões sobre a interação dessas obras dentro do conjunto de trabalhos da exposição das quais fazem parte, a mostra The Generational: Younger Than Jesus exibida no New Museum (Nova Iorque) de Abril a Julho de 2009.
Aqui, pretendo analisar essas interações sob algumas perspectivas específicas: a identidade artística em tempos de globalização, as linguagens e dinâmicas artísticas hegemônicas no mundo da arte ( e como elas podem deslocar interesses estéticos de artistas e compradores/distribuidores de arte ) e por fim, a “desterritorialização” da identidade artística como característica comum do conjunto de artistas latinos representado em Younger Than Jesus. O que me interessa realmente é entender como esse conjunto de artistas latino-americanos está descrito e apresentado nos materiais produzidos pelo New Museum e apontar – a partir desses textos – algumas possíveis visões sobre a contribuição da jovem arte latino-americana no mercado de arte global, investigando o diálogo e a difusão global de suas obras como aspecto fundamental e definidor do valor estético de suas obras.
O referencial para as reflexões abrange os textos sobre identidade cultural na pós-modernidade e pós-colonialidade de Stuart Hall, os estudos sobre o modernismo e modernização da América Latina de Nestor García Canclini, textos de Kwame Anthony Appiah sobre as estratégias de distinção no mercado de arte contemporânea, Karl Mannheim no problema sociológico da “geração” e finalmente, textos de Pierre Bourdieu sobre a disputa do capital cultural no campo da arte.
Texto crítico escrito para o lançamento do CD “Jardim das Gambiarras Chinesas” no MIS-SP em Agosto de 2009.
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Me apoiar em antigas definições do que é “música experimental” para descrever o trabalho do duo N-1, não vai me ajudar em nada. Aliás, pensar em N-1 como um fenômeno puramente musical é um erro ainda maior para o que quero dizer. Gostaria de pensar o N-1 como espécime de uma nova geração de artistas que já tiveram a maior parte de sua juventude e formação positivamente contaminada pelas tecnologias e pelos meios de comunicação digital. Para a “Generation Y” ou “iGeneration”, a tecnologia não é um alienígena ao qual pouco a pouco vamos nos acostumando. Para essa geração (da qual também faço parte) a tecnologia já é algo natural, para não dizer óbvio.
Essa relação – por que não dizer – íntima com a tecnologia, permite que Giuliano Obici e Alexandre Fenerich desenvolvam uma postura artística diferenciada e um distanciamento crítico necessário para se criar uma arqueologia semi-nonsense de objetos de consumo. Com essa postura, eles manipulam relações conceituais entre coisas e sonoridades, sempre na busca de construir pontes temporárias, mutáveis e fragmentadas entre o mundo das coisas plásticas e o mundo dos estranhamento sonoros. Sem apegos, sem teses.
Na composição dessas relações interessantes e engraçadas, N-1 comporta-se quase como uma assombração – ou melhor – uma espécie de Exu. Esse espírito criativo sai por aí, possuindo seus semi-instrumentos musicais, incorporando seus discos de vinil decorados com brinquedos, animando suas latas de leite em pó histéricas e concretizando-se como simpáticas microfonias que rondam suas performances como para dizer “eu existo aqui e agora, mas talvez não depois”.
Há um tempo finalmente me dei conta como a área da sound-art é pouco diversa nas diferenças de classe social de quem faz parte da sua produção teórica e prática. O fazer artístico (que nos países em desenvolvimento já é condicionado por uma série de “privilégios” culturais que envolvem – dentre outras – questões de classe), parece encontrar sua especificidade máxima nessa área. A sound-art exige do artista a fluência nos códigos do sistema das artes visuais, nos códigos do sistema da música com “M” maiúsculo e/ou experimental, nos códigos da sound-art por si própria e um certo conhecimento técnico em som, acústica, programação, sensores ou em qualquer outro elemento que o artista for utilizar em suas obras. Por essa necessidade de conhecimentos híbridos para conceber, produzir e pensar uma arte sonora, essa discussão de diferença de classes parece até irrelevante, já que os envolvidos na sound-art já passaram pelos “filtros culturais” estabelecidos pelos diversos tipos de investimento que um artista sonoro faz em sua formação.
Dizer simplesmente que existe pouco ou nenhum espaço para a diferença de classes sociais na sound-art é ainda mais ingênuo se considerarmos um fato anterior de que são necessários interesses culturais, institucionais e comerciais para que a ideia fundamental de uma arte sonora possa sequer existir. Esses interesses que apoiam as preocupações estéticas da sound-art (e de várias outras práticas artísticas) só existem em condições específicas, e essas condições calham de ser proporcionadas essencialmente pelas sobras da riqueza da modernidade. Nestor García Canclini no texto “Das Utopias ao Mercado” (do livro “Culturas Híbridas”) apresenta diversas reflexões sobre como essas sobras de riqueza já tem um curso e um destino mais ou menos definido, que na maioria do tempo passa longe de algumas classes e ainda mais longe dessas classes nos país em desenvolvimento. Acredito que isso contribua para que a sound-art lide com questões de sua própria esfera e seja endereçada ao público já familiar a essa mesma esfera, formando uma atitude artística predominantemente formal e insular.
Na verdade, o que mais me provocou a pensar nessas questões foi um vídeo anônimo que assisti no YouTube, que mostra uma improvável “candidata” ao mundo da sound-art. De tão improvável e subalterna, essa pessoa parece até desafiar os protocolos da arte só pelo simples fato de querer fazer parte dela.
Quem é essa garota? Eu pensei. Se é uma artista, é uma artista corajosa. E eu quis acreditar que ela era uma artista porque assim talvez a sua insolência parecesse ainda maior e sua cara-de-pau ainda mais dura. Se Erica for realmente uma artista colocando-se no lugar de uma empregada doméstica mexicana, ela parece ter desenvolvido uma compreensão irreverente de como o capital cultural das artes classificadas como “eletrônicas” é dividido atualmente, oferecendo os dois lados da face para que sejam estapeados por dois grupos diferentes: dos artistas sonoros e das empregadas domésticas mexicanas.
Não existe nenhuma informação online sobre a autoria do vídeo e sobre o contexto em que ele foi feito. A única ligação em que o espectador estabelece com Erica é uma linha direta com a intimidade da personagem que não vocaliza seus desejos, mas os transcreve em legendas. O fato de que o objeto de desejo de Erica provavelmente esteja mais próximo ao espectador do que a ela mesma, imediatamente seduz quem ouve sua “voz” deslocada para os ruídos e modulações do semi-sintetizador com o qual brinca.
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A autoria de Yosoyerica
Escrevi para o avatar “Warlip” que foi quem colocou o vídeo no ar. Queria entender a trajetória da suposta doméstica mexicana com habilidades extraordinárias às expectativas em torno de uma pessoa de sua posição. Não tinha muitas esperanças de ser respondida, afinal Warlip também não me dava muitas pistas de quem seria. Mas fui surpreendida. Warlip é na verdade Juan Felipe Waller, um jovem e respeitado compositor mexicano-holandês.
Waller vive na Holanda e estudou em respeitadas instituições de pesquisa em música eletro-acústica como o IRCAM na França; foi premiado por suas composições como no NOG Jonge Componisten Concours e já teve suas obras interpretadas por performers como o Schoenberg-Ensemble. É uma pessoa que claramente habita o centro da produção e disseminação da música erudita e que curiosamente também elaborou e editou o vídeo YoSoyErica. Entrevistei-o por email para entender melhor sua proposta.
Vivian: Quando assisti o vídeo pela primeira vez, eu tinha uma ideia quase clara de que Erica era uma performer. Uma artista sonora promovendo uma experiência social, jogando com a posição/estereótipo da empregada doméstica mexicana. Depois que nós conversamos pela primeira vez, percebi que eu estava errada. Quem na verdade é Erica?
Juan: Na verdade, Erica é mesmo uma empregada mexicana. Eu a conheci porque ela trabalhava para minha mãe. Eu moro no exterior e toda vez que vou passar um tempo no México, uma empregada nova aparece trabalhando na casa da minha mãe. Ela faz as meninas usarem – como você mencionou – essas roupas estereotipadas que normalmente elas não gostam. Quando visito minha mãe, sou sempre confrontado com a “realidade da doméstica”, mesmo que eu tenha crescido com essa realidade. Sempre tento fazer amizade com elas, ao invés de ter uma relação patrão-empregada… mas isso pode ser difícil às vezes já que não é simples quebrar as barreiras dos “protocolos não ditos” que dividem as classes. O sistema de classes sociais mexicano é bem complexo. A paleta de classes ou “níveis” sociais é vasta na história do país. Infelizmente, as classes ainda são determinadas com base nas raças. Erica vem de uma família simples de Puebla, que fica há duas horas da Cidado do México. Ela terminou somente o terceiro ano do ensino fundamental. Seu sonho é ser esteticista e ter uma família. O vídeo pode não mostrar direito, mas ela é uma pessoa muito alegre e falante…nós conseguíamos nos comunicar com liberdade dentro de certos limites.
Vivian:Erica parece imediatamente confiar no espectador para confessar seus interesses secretos…ela oferece sua intimidade através do desejo de se tornar uma artista sonora. A quem você acha que ela está endereçando sua subjetividade?
Juan: Realmente, ela se sentiu muito confortável diante da câmera, uma câmera de celular que utilizei. Certamente ela estava consciente que estava sendo filmada, mas ela não lida ali com auto-consciência. A intimidade que ela reflete – se não considerarmos os textos – vem de sua própria presença. Sua amável simplicidade fala muito por si mesma. Isso se reflete dessa maneira tão pura ao espectador porque ela não tem a pretensão e a pose que um artista sempre terá. Grande parte do texto do vídeo é um resumo de nossas conversas quando ela se abria para falar mais. Eu tive que colocar tudo sob perspectiva e dar forma àquilo. Para fazer o espectador entender de maneira imediata, tive que colocar tudo isso em um contexto. E o contexto foi aquele de um artista sonoro [sound-artist]. Não é que ela se via como uma artista sonora do jeito que artistas sonoros se vêem. Ela não está ciente deste contexto de forma alguma. Para ela, aquilo era mais como um momento pessoal em que ela teve a chance de experimentar algo em particular e expressar-se de maneira diferente. Isso era muito claro para ela e se empolgou com o fato.
Vivian: É desconcertante como a proposta do vídeo muda completamente ao saber disso. Inicialmente, esse vídeo tinha me mostrado como uma mulher subalterna do “Terceiro Mundo” “distorceu” o uso convencional das mídias para criar um lugar de discurso para ela própria. No texto, ela afirma que ainda não está pronta, que ela precisa de ajuda para ser uma artista. Mas para mim, esse não era o ponto principal. Sua “Arte” já estava realizada por esse uso subversivo das mídias e de sua própria posição de mulher subalterna. No entanto, agora que sei que você é na verdade o autor do vídeo e do texto que Erica fala, parece a mim que na realidade foi DADA uma voz a Erica. Você pode comentar mais sobre a negociação que aconteceu entre você e a Erica “verdadeira” para que vocês gravassem o vídeo?
Juan: Eu frequentemente ensino as empregadas domésticas a usar o computador ou outro aparelho útil. Naquele momento eu tinha comprado essa caixa vermelha, conhecida como Weevil, feita por Tom Bugs. É somente um simples semi-sintetizador que possui 3 osciladores diferentes que podem modular uns aos outros. No momento que Erica começou a tocá-lo, eu fiquei impressionado com sua concentração e sensibilidade. O Weevil é projetado de uma maneira tão empírica que qualquer um pode tentar tocá-lo. Pode-se entender muito de uma pessoa na maneira em que ela utiliza aquilo. Era impressionante ver o jeito da Erica. Eu nunca tinha visto ninguém tocando o Weevil com aquela calma e atenção, escutando cada detalhe como se ela tivesse feito aquilo a vida inteira. Ela gostou de tocá-lo e eu espontaneamente a perguntei se eu poderia gravar um vídeo. No momento só tinha a câmera do meu celular e um bom gravador Zoom Audio. Com aquilo era só a diversão de tentar criar vídeos em diferentes lugares da casa. Editei o vídeo eu mesmo e adicionei a legenda. Mostrei a ela. Ela achou aquilo louco e se sentiu elogiada. É importante ressaltar que para ela aquilo era só uma coisa divertida para se fazer e só. Como um jogo. Não era como se ela pudesse ver aquilo dentro do contexto de fazer arte, fazer uma subversão ou qualquer coisa do tipo. Ela estava se divertindo com a caixa e gostou de brincar com aquilo. Eu a perguntei se eu podia colocar o vídeo na internet. Ela não viu problemas. Como você mencionou, de fato a ela foi dada uma voz. A “voz” de Erica tem um lugar nesse vídeo. Falta alguns ingredientes para a improvisação eletrônica atual, algo extra que justifique aquilo tudo. A maneira que Erica lidou com aquilo tudo foi muito mais interessante que vários concertos de laptop que eu já vi.
Vivian:Sim, Yosoyerica com certeza traz um elemento novo para a sound-art, que é a criação de contexto de conflito estético entre quem é e quem não é “autorizado” a pertencer àquela cena. Mas, isso não seria possível sem você, sem a sua “tradução” de Erica para a esfera da sound-art…porque Erica fora da sua representação no vídeo não quer ser artista sonora, mesmo porque desconhece esse contexto. Portanto, o que gostaria de saber, é a quem interessa essa tradução de Erica? Em quem você pensava na hora em que colocou o vídeo na rede e usou tags como “experimental”, “cute” e “patrons” ? Pelos comentários consigo ver que o vídeo atraiu um público que conhece ou produz música experimental e reside em países como Canadá, França, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido.
Juan: Bom, acho que o primeiro interessado nessa tradução era eu mesmo. Foi por isso que eu a fiz…seria ótimo se esse tipo de conto-de-fadas fosse real. Seria fantástico se Erica fizesse esse vídeo e pedisse ajuda para ser uma artista. É quase uma piada sobre os artistas. Neste vídeo, foi uma decisão consciente tornar Erica em um tipo de “pseudônimo”. Eu acho que é crucial para um artista fazer esse tipo de coisa em algum momento. Em Yosoyerica, existe um email pelo qual o público pode contatá-la (curiosamente você não o mencionou). Além dos comentários que se pode ler no YouTube, os emails que foram mandados para yosoyerica@gmail.com foram bem intensos. Voltando às perguntas Que tipo de público? e Quem na sua opinião estaria interessado na tradução de Erica?, é inevitável que o vídeo atrairá predominantemente um público especializado. Mas isso é só um resultado e não uma intenção. De fato, eu também estava curioso sobre a resposta a esta mesma pergunta. É comum que hoje em dia o acesso à internet e sua dinâmica sejam tidos como óbvios. As pessoas querem muito afirmar que qualquer um pode ter uma “voz” na rede e ficam curiosas para ver como essa tradução acontece em um status quo que era antes ignorado. Mesmo assim, isso não acontece tão facilmente e existe ainda um abismo entre pessoas com e sem recursos. Uma resposta interessante à Erica foi uma instituição interessada em ajudar mulheres de países em desenvolvimento, para criar maiores chances para que elas tenham sua própria voz sem um “tradutor”. Bem curiosa a questão que você levantou sobre as tags. É verdade, é uma mistura estranha. A ideia das tags era que fossem um gancho, mas sempre relevante ao conteúdo do vídeo e não palavras aleatórias, o que é comum. No final, arte é uma ilusão e a própria relevância dessa ilusão é seu significado. Fundamentalmente, existe sim um lado caricatural no vídeo que é central para a proposta em questão.