performance "Muxux Uleu" de Naúfus Ramírez-Figueroa
Este é um ensaio que apresenta algumas investigações sobre a representação da arte jovem latino-americana no mercado de arte global, tendo como objeto uma exposição feita exclusivamente com artistas nascidos após 1976. Gostaria de chamar atenção de que essas não são afirmações definitivas sobre a produção dos artistas que tomo como exemplo. Mas sim, algumas reflexões sobre a interação dessas obras dentro do conjunto de trabalhos da exposição das quais fazem parte, a mostra The Generational: Younger Than Jesus exibida no New Museum (Nova Iorque) de Abril a Julho de 2009.
Aqui, pretendo analisar essas interações sob algumas perspectivas específicas: a identidade artística em tempos de globalização, as linguagens e dinâmicas artísticas hegemônicas no mundo da arte ( e como elas podem deslocar interesses estéticos de artistas e compradores/distribuidores de arte ) e por fim, a “desterritorialização” da identidade artística como característica comum do conjunto de artistas latinos representado em Younger Than Jesus. O que me interessa realmente é entender como esse conjunto de artistas latino-americanos está descrito e apresentado nos materiais produzidos pelo New Museum e apontar – a partir desses textos – algumas possíveis visões sobre a contribuição da jovem arte latino-americana no mercado de arte global, investigando o diálogo e a difusão global de suas obras como aspecto fundamental e definidor do valor estético de suas obras.
O referencial para as reflexões abrange os textos sobre identidade cultural na pós-modernidade e pós-colonialidade de Stuart Hall, os estudos sobre o modernismo e modernização da América Latina de Nestor García Canclini, textos de Kwame Anthony Appiah sobre as estratégias de distinção no mercado de arte contemporânea, Karl Mannheim no problema sociológico da “geração” e finalmente, textos de Pierre Bourdieu sobre a disputa do capital cultural no campo da arte.
Há um tempo finalmente me dei conta como a área da sound-art é pouco diversa nas diferenças de classe social de quem faz parte da sua produção teórica e prática. O fazer artístico (que nos países em desenvolvimento já é condicionado por uma série de “privilégios” culturais que envolvem – dentre outras – questões de classe), parece encontrar sua especificidade máxima nessa área. A sound-art exige do artista a fluência nos códigos do sistema das artes visuais, nos códigos do sistema da música com “M” maiúsculo e/ou experimental, nos códigos da sound-art por si própria e um certo conhecimento técnico em som, acústica, programação, sensores ou em qualquer outro elemento que o artista for utilizar em suas obras. Por essa necessidade de conhecimentos híbridos para conceber, produzir e pensar uma arte sonora, essa discussão de diferença de classes parece até irrelevante, já que os envolvidos na sound-art já passaram pelos “filtros culturais” estabelecidos pelos diversos tipos de investimento que um artista sonoro faz em sua formação.
Dizer simplesmente que existe pouco ou nenhum espaço para a diferença de classes sociais na sound-art é ainda mais ingênuo se considerarmos um fato anterior de que são necessários interesses culturais, institucionais e comerciais para que a ideia fundamental de uma arte sonora possa sequer existir. Esses interesses que apoiam as preocupações estéticas da sound-art (e de várias outras práticas artísticas) só existem em condições específicas, e essas condições calham de ser proporcionadas essencialmente pelas sobras da riqueza da modernidade. Nestor García Canclini no texto “Das Utopias ao Mercado” (do livro “Culturas Híbridas”) apresenta diversas reflexões sobre como essas sobras de riqueza já tem um curso e um destino mais ou menos definido, que na maioria do tempo passa longe de algumas classes e ainda mais longe dessas classes nos país em desenvolvimento. Acredito que isso contribua para que a sound-art lide com questões de sua própria esfera e seja endereçada ao público já familiar a essa mesma esfera, formando uma atitude artística predominantemente formal e insular.
Na verdade, o que mais me provocou a pensar nessas questões foi um vídeo anônimo que assisti no YouTube, que mostra uma improvável “candidata” ao mundo da sound-art. De tão improvável e subalterna, essa pessoa parece até desafiar os protocolos da arte só pelo simples fato de querer fazer parte dela.
Quem é essa garota? Eu pensei. Se é uma artista, é uma artista corajosa. E eu quis acreditar que ela era uma artista porque assim talvez a sua insolência parecesse ainda maior e sua cara-de-pau ainda mais dura. Se Erica for realmente uma artista colocando-se no lugar de uma empregada doméstica mexicana, ela parece ter desenvolvido uma compreensão irreverente de como o capital cultural das artes classificadas como “eletrônicas” é dividido atualmente, oferecendo os dois lados da face para que sejam estapeados por dois grupos diferentes: dos artistas sonoros e das empregadas domésticas mexicanas.
Não existe nenhuma informação online sobre a autoria do vídeo e sobre o contexto em que ele foi feito. A única ligação em que o espectador estabelece com Erica é uma linha direta com a intimidade da personagem que não vocaliza seus desejos, mas os transcreve em legendas. O fato de que o objeto de desejo de Erica provavelmente esteja mais próximo ao espectador do que a ela mesma, imediatamente seduz quem ouve sua “voz” deslocada para os ruídos e modulações do semi-sintetizador com o qual brinca.
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A autoria de Yosoyerica
Escrevi para o avatar “Warlip” que foi quem colocou o vídeo no ar. Queria entender a trajetória da suposta doméstica mexicana com habilidades extraordinárias às expectativas em torno de uma pessoa de sua posição. Não tinha muitas esperanças de ser respondida, afinal Warlip também não me dava muitas pistas de quem seria. Mas fui surpreendida. Warlip é na verdade Juan Felipe Waller, um jovem e respeitado compositor mexicano-holandês.
Waller vive na Holanda e estudou em respeitadas instituições de pesquisa em música eletro-acústica como o IRCAM na França; foi premiado por suas composições como no NOG Jonge Componisten Concours e já teve suas obras interpretadas por performers como o Schoenberg-Ensemble. É uma pessoa que claramente habita o centro da produção e disseminação da música erudita e que curiosamente também elaborou e editou o vídeo YoSoyErica. Entrevistei-o por email para entender melhor sua proposta.
Vivian: Quando assisti o vídeo pela primeira vez, eu tinha uma ideia quase clara de que Erica era uma performer. Uma artista sonora promovendo uma experiência social, jogando com a posição/estereótipo da empregada doméstica mexicana. Depois que nós conversamos pela primeira vez, percebi que eu estava errada. Quem na verdade é Erica?
Juan: Na verdade, Erica é mesmo uma empregada mexicana. Eu a conheci porque ela trabalhava para minha mãe. Eu moro no exterior e toda vez que vou passar um tempo no México, uma empregada nova aparece trabalhando na casa da minha mãe. Ela faz as meninas usarem – como você mencionou – essas roupas estereotipadas que normalmente elas não gostam. Quando visito minha mãe, sou sempre confrontado com a “realidade da doméstica”, mesmo que eu tenha crescido com essa realidade. Sempre tento fazer amizade com elas, ao invés de ter uma relação patrão-empregada… mas isso pode ser difícil às vezes já que não é simples quebrar as barreiras dos “protocolos não ditos” que dividem as classes. O sistema de classes sociais mexicano é bem complexo. A paleta de classes ou “níveis” sociais é vasta na história do país. Infelizmente, as classes ainda são determinadas com base nas raças. Erica vem de uma família simples de Puebla, que fica há duas horas da Cidado do México. Ela terminou somente o terceiro ano do ensino fundamental. Seu sonho é ser esteticista e ter uma família. O vídeo pode não mostrar direito, mas ela é uma pessoa muito alegre e falante…nós conseguíamos nos comunicar com liberdade dentro de certos limites.
Vivian:Erica parece imediatamente confiar no espectador para confessar seus interesses secretos…ela oferece sua intimidade através do desejo de se tornar uma artista sonora. A quem você acha que ela está endereçando sua subjetividade?
Juan: Realmente, ela se sentiu muito confortável diante da câmera, uma câmera de celular que utilizei. Certamente ela estava consciente que estava sendo filmada, mas ela não lida ali com auto-consciência. A intimidade que ela reflete – se não considerarmos os textos – vem de sua própria presença. Sua amável simplicidade fala muito por si mesma. Isso se reflete dessa maneira tão pura ao espectador porque ela não tem a pretensão e a pose que um artista sempre terá. Grande parte do texto do vídeo é um resumo de nossas conversas quando ela se abria para falar mais. Eu tive que colocar tudo sob perspectiva e dar forma àquilo. Para fazer o espectador entender de maneira imediata, tive que colocar tudo isso em um contexto. E o contexto foi aquele de um artista sonoro [sound-artist]. Não é que ela se via como uma artista sonora do jeito que artistas sonoros se vêem. Ela não está ciente deste contexto de forma alguma. Para ela, aquilo era mais como um momento pessoal em que ela teve a chance de experimentar algo em particular e expressar-se de maneira diferente. Isso era muito claro para ela e se empolgou com o fato.
Vivian: É desconcertante como a proposta do vídeo muda completamente ao saber disso. Inicialmente, esse vídeo tinha me mostrado como uma mulher subalterna do “Terceiro Mundo” “distorceu” o uso convencional das mídias para criar um lugar de discurso para ela própria. No texto, ela afirma que ainda não está pronta, que ela precisa de ajuda para ser uma artista. Mas para mim, esse não era o ponto principal. Sua “Arte” já estava realizada por esse uso subversivo das mídias e de sua própria posição de mulher subalterna. No entanto, agora que sei que você é na verdade o autor do vídeo e do texto que Erica fala, parece a mim que na realidade foi DADA uma voz a Erica. Você pode comentar mais sobre a negociação que aconteceu entre você e a Erica “verdadeira” para que vocês gravassem o vídeo?
Juan: Eu frequentemente ensino as empregadas domésticas a usar o computador ou outro aparelho útil. Naquele momento eu tinha comprado essa caixa vermelha, conhecida como Weevil, feita por Tom Bugs. É somente um simples semi-sintetizador que possui 3 osciladores diferentes que podem modular uns aos outros. No momento que Erica começou a tocá-lo, eu fiquei impressionado com sua concentração e sensibilidade. O Weevil é projetado de uma maneira tão empírica que qualquer um pode tentar tocá-lo. Pode-se entender muito de uma pessoa na maneira em que ela utiliza aquilo. Era impressionante ver o jeito da Erica. Eu nunca tinha visto ninguém tocando o Weevil com aquela calma e atenção, escutando cada detalhe como se ela tivesse feito aquilo a vida inteira. Ela gostou de tocá-lo e eu espontaneamente a perguntei se eu poderia gravar um vídeo. No momento só tinha a câmera do meu celular e um bom gravador Zoom Audio. Com aquilo era só a diversão de tentar criar vídeos em diferentes lugares da casa. Editei o vídeo eu mesmo e adicionei a legenda. Mostrei a ela. Ela achou aquilo louco e se sentiu elogiada. É importante ressaltar que para ela aquilo era só uma coisa divertida para se fazer e só. Como um jogo. Não era como se ela pudesse ver aquilo dentro do contexto de fazer arte, fazer uma subversão ou qualquer coisa do tipo. Ela estava se divertindo com a caixa e gostou de brincar com aquilo. Eu a perguntei se eu podia colocar o vídeo na internet. Ela não viu problemas. Como você mencionou, de fato a ela foi dada uma voz. A “voz” de Erica tem um lugar nesse vídeo. Falta alguns ingredientes para a improvisação eletrônica atual, algo extra que justifique aquilo tudo. A maneira que Erica lidou com aquilo tudo foi muito mais interessante que vários concertos de laptop que eu já vi.
Vivian:Sim, Yosoyerica com certeza traz um elemento novo para a sound-art, que é a criação de contexto de conflito estético entre quem é e quem não é “autorizado” a pertencer àquela cena. Mas, isso não seria possível sem você, sem a sua “tradução” de Erica para a esfera da sound-art…porque Erica fora da sua representação no vídeo não quer ser artista sonora, mesmo porque desconhece esse contexto. Portanto, o que gostaria de saber, é a quem interessa essa tradução de Erica? Em quem você pensava na hora em que colocou o vídeo na rede e usou tags como “experimental”, “cute” e “patrons” ? Pelos comentários consigo ver que o vídeo atraiu um público que conhece ou produz música experimental e reside em países como Canadá, França, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido.
Juan: Bom, acho que o primeiro interessado nessa tradução era eu mesmo. Foi por isso que eu a fiz…seria ótimo se esse tipo de conto-de-fadas fosse real. Seria fantástico se Erica fizesse esse vídeo e pedisse ajuda para ser uma artista. É quase uma piada sobre os artistas. Neste vídeo, foi uma decisão consciente tornar Erica em um tipo de “pseudônimo”. Eu acho que é crucial para um artista fazer esse tipo de coisa em algum momento. Em Yosoyerica, existe um email pelo qual o público pode contatá-la (curiosamente você não o mencionou). Além dos comentários que se pode ler no YouTube, os emails que foram mandados para yosoyerica@gmail.com foram bem intensos. Voltando às perguntas Que tipo de público? e Quem na sua opinião estaria interessado na tradução de Erica?, é inevitável que o vídeo atrairá predominantemente um público especializado. Mas isso é só um resultado e não uma intenção. De fato, eu também estava curioso sobre a resposta a esta mesma pergunta. É comum que hoje em dia o acesso à internet e sua dinâmica sejam tidos como óbvios. As pessoas querem muito afirmar que qualquer um pode ter uma “voz” na rede e ficam curiosas para ver como essa tradução acontece em um status quo que era antes ignorado. Mesmo assim, isso não acontece tão facilmente e existe ainda um abismo entre pessoas com e sem recursos. Uma resposta interessante à Erica foi uma instituição interessada em ajudar mulheres de países em desenvolvimento, para criar maiores chances para que elas tenham sua própria voz sem um “tradutor”. Bem curiosa a questão que você levantou sobre as tags. É verdade, é uma mistura estranha. A ideia das tags era que fossem um gancho, mas sempre relevante ao conteúdo do vídeo e não palavras aleatórias, o que é comum. No final, arte é uma ilusão e a própria relevância dessa ilusão é seu significado. Fundamentalmente, existe sim um lado caricatural no vídeo que é central para a proposta em questão.
Na música pop, poucas idéias parecem ser tão frescas quanto as da cantora britânica M.I.A. . Ainda. Porque já faz cinco anos que a cantora de família cingalesa lançou o álbum Arular que a lançou no mundo como uma novidade imperdível da cena alternativa londrina. Mas ela provou ser muito mais que isso com sua mistura explosiva de dancehall, hip-hop, electro, funk carioca, dub, kuduro e diversos outros ritmos eletrônicos inventados nas “periferias globais”. M.I.A. ganhou o grande público inventando uma estética multicultural que une o som das favelas do Rio de Janeiro com batidas do tambor indiano urumee, samples de pegada hip-hop e o que a sua criatividade e a de seus colaboradores (como o aclamado DJ e produtor Diplo, o rapper Afrikan Boy, etc) mandarem.
A artista londrina tornou-se uma espécie de veículo da criatividade musical contagiante das periferias globais, habitando simultaneamente diversas identidades estereotípicas e não-estereotípicas de forma a criar uma bricolage de imagens do “Terceiro Mundo”, do “diaspórico”, do “pós-colonial”, do “exótico” que funcionam como seus eixos estéticos assim como o pop, a moda e sua sensualidade; elementos estruturadores de seu poderoso carisma e da via de comunicação ampla que a levou aos mais variados públicos.
Uma posição tão especial como essa abre margem para que a mídia tente classificar o que M.I.A. representa no mundo pop de modo a capturar em poucas palavras o desafio que sua música, seus clipes e sua moda põe a ideias pouco descentralizadas sobre uma identidade terceiromundista ou pós-colonial. Uma das tentativas mais recentes é a comparação à cantora e produtora musical americana Santigold (antiga Santogold).
Santi White é negra, nascida na Filadélfia, e lançou seu primeiro álbum solo em 2008 que foi recebido com críticas entusiasmadas e muitas vezes acompanhadas de tais comparações à M.I.A. . Os paralelos começam inocentemente na menção dos colaboradores que as cantoras tem em comum (os DJs Diplo e Switch, mencionados pelo blog indie Pitchfork) e passam por erros graves como o da matéria “A vez de Santogold” publicada na Folha de São Paulo. O jornalista Thiago Ney começa a coluna com a premissa da comparação e chega a afirmar que as duas cantoras são “negras”. Até que a Geografia mude os mapas, o Sri Lanka não fica na África, mas no Oceano Índico ao sul da Índia. É da etnia tamil daquele país a origem da família de Mathangi Arulpragasam – M.I.A.
Nesse ponto compreendo que comparações podem ser muitas vezes um artifício do jornalismo para chamar a atenção do/a leitor/a para algo novo, contrastando-o com algo já familiar a ele/a. No entanto, esse artifício de comparação no caso específico M.I.A X Santigold não existiria se não houvessem estratégias discursivas de identificação agindo sobre a interpretação da estética das cantoras/produtoras. Somente com a segurança epistemológica do estereótipo pode-se comparar uma artista britânica de ascendência cingalesa à uma artista afro-americana que produz uma música pop de motivações estéticas distintas.
A pergunta que coloco é: como a mídia estabelece uma margem de comparação entre M.I.A. e Santigold, que a permite criar um espaço representativo que comporta somente uma “diva”? Em outras palavras, como e por quem é diagramado o álbum onde M.I.A. e Santigold são figurinhas repetidas? Não pretendo traçar um histórico da mídia da música pop para mapear as origens dessas vagas limitadas, mas sim chamar atenção em como a diferença é um parâmetro de classificação dessa economia que usa denominações como “world music”. “World Music” é uma categoria musical popular criada nos anos 60 que abrange basicamente toda a música que não é feita no Hemisfério Norte ocidental ou não compartilha da identidade musical popular da mesma região. Vários aspectos podem jogar um artista dentro da categoria “world music”, como origem, idioma em que se canta, instrumentos e sistema tonal e rítmico utilizados, mas a classificação essencialmente se estrutura na perspectiva da diferença racial/cultural/histórica, na “representação da alteridade” – para usar as palavras de Homi K. Bhabha.
Creio que M.I.A. e Santigold estão compromissadas demais com o Ocidente e com a música pop ocidental para serem inseridas na categoria. Ainda mais Santigold que fez um álbum inclassificável do ponto de vista das categorias pop, juntando faixas rock ao estilo Blondie e Siouxsie and The Banshees com outras canções de batida pesada dub, dubstep e transfigurações do reggae com elementos do rock. No entanto, na visão da mídia ainda existe o elemento da diferença que as une como exemplares de um único fenômeno. Um fenômeno que provoca prazer e medo ao mesmo tempo, já que no trabalho das duas artistas a já conhecida estética pop se une a diversos elementos vistos como “diferentes” como o funk carioca, o dub e os tambores indianos e a própria diferença racial das cantoras. Nessa proposta estética, o público é levado a um nível intermediário de reconhecimento, uma “categoria mediana que permite que se vejam coisas novas, coisas vistas pela primeira vez, como versões de uma coisa previamente conhecida”, citando Bhabha novamente.
Seria então essa “categoria mediana” o território de comparação de Santigold à M.I.A.? Nessa categoria, Santigold parece tentar suavizar o choque das “coisas novas” com formatos já conhecidos de composição e apresentação da música pop. Já M.I.A. explora o medo do outro a seu favor e apresenta a différance como um agregador de valor e originalidade. As duas, de maneiras distintas, estão habitando uma posição de fragmentação do exótico/desconhecido para signos que podem ser mais facilmente assimilados e utilizados posteriormente como moda, estilo e até como bases de um novo gênero musical. Resta saber como é representada essa posição de fragmentação: como um gerador de imagens estereotipadas ou como um território que pode ser habitado pela diversidade estética/cultural/racial.
As entrevistas feitas com Gayatri Spivak, “The Post-Colonial Critic” e “Postmarked Calcutta, India” foram realizadas respectivamente em Nova Delhi e Carolina do Norte. Convidada para lecionar na Jawaharlal Nehru University em 1987, Spivak retornou aos Estados Unidos em 1989 – uma mudança/movimento que funcionou como plano de fundo para as discussões da série de entrevistas.
Acredito que o que há de mais relevante para se ressaltar primeiramente nesses registros do diálogo Spivak X Angela Ingram, Rashmi Bhatnagar, Lola Chatterjee e Rajeshwari Sunder Rajan; é o ponto de partida do sujeito Spivak do qual ela relata suas experiências nas posições de professora acadêmica, mulher indiana, cidadã “bicultural”, residente alienígena, mulher do “Terceiro Mundo”, e outras:
“[...] I have always felt that one should speak personally. Yes, that one should think of oneself as a public individual, so that it’s not like every bit of your confessional history, but it’s trying to think of the representative space which you occupy.”
A partir desse depoimento, compreendo que Spivak oferece considerações não sobre a origem de suas características pessoais ou uma espécie confissão de sua história íntima, mas sim sobre como sua individualidade intelectual e comportamental desempenha reações e resistências a partir da posição que ela ocupa. É importante ressaltar que Spivak não descreve sua posição como algo transcendental ou fixo, e sim a relativiza com base na presença em diferentes estruturas que descreve na entrevista: o ambiente acadêmico “ocidental” (norte-americano, britânico, francês, etc.), o ambiente acadêmico indiano, a vida cidadã em Calcutá, Delhi, Estados Unidos, Grã-Bretanha, a vida familiar de classe alta em Calcutá, o casamento com um homem branco ocidental, etc. Todas essas estruturas facilitam uma perspectiva específica da posição de Spivak como mulher indiana, mulher do “Terceiro Mundo”, teórica pós-colonial, teórica feminista, e muitas outras definições que emergiram durante os diálogos. Acredito que a vivência de Spivak dentro dessas estruturas define o que é seu espaço representativo.
Um exemplo banal que ilustra esse modo de pensar, é quando Spivak decompõe o problema do significado de seu corte de cabelo no Ocidente e na Índia. O cabelo raspado da autora é um significante plural em sistemas distintos: na Índia, é um corte típico das viúvas, no Ocidente, é um corte trendy. Ele portanto não é algo fixo, mas multi-angular, temporário. Sua descrição desse problema reforça que sua visão intelectual não é aquela do entendimento através de um objeto de investigação, mas sim a da posição de sujeito. Mais surpreendente ainda é entender como Spivak aplica esse mesmo perspectivismo na solução de embates quotidianos, situações extra-acadêmicas. Em uma discussão no trânsito, ela se utilizou de “álibis” para criar uma estrutura de poder: um sinal de propriedade (o número da carteira de seguro) e um tom de voz autoritário de Mãe. Ela disse ao homem branco que estava gritando com ela “stop muttering” com um tom maternal e firme e “venceu” a discussão. Muitas outras situações equivalentes foram mencionadas nas entrevistas e revelam como Spivak pouco separa a teoria da prática.
Essa sincronia cidadão X pensador acadêmico é talvez uma das discussões mais polêmicas da entrevista “Postmarked Calcutta, India”: é freqüentemente cobrado uma certa “legitimidade” de Spivak pela a academia, no sentido de haver uma harmonia entre a origem ou background da teórica e a matéria que ela irá lecionar. Um exemplo: quando Spivak foi convidada a lecionar Francês Moderno, ela enfrentou resistência por ser uma cidadã residente alienígena dos Estados Unidos. Em um segundo momento, ela tinha também que provar que era uma autêntica indiana marxista. Isso a levou posteriormente a depor que:
“You can only teach in the bosom of the superpower. Elsewhere, it’s about ‘other people’ “.
Isso quer dizer que os “outros” não podem ensinar, mas somente transferir informação, já que eles ocupam uma posição alheia, exótica, e aquilo tem pouco a interferir sobre aqueles que acolherão a informação, neste caso, os alunos ocidentais. No entanto, Spivak menciona que no momento da entrevista, ela já gozava de um espaço representativo de maior autoridade. Para finalizar, gostaria de levantar a questão:
Sobre as demandas que recaem sobre a mulher teórica “terceiromundista”:A necessidade de Spivak de provar sua posição em uma estrutura específica, é uma demanda do Ocidente feita exclusivamente aos teóricos “pós-coloniais”? É esperado uma posição específica dos teóricos Ocidentais, ou isso é uma expectativa exclusiva em relação aos teóricos “fora do eixo”?